O testemunho na era da informação

O ar cansado das minhas roupas, seguido de Alguém olhará por nós

SANDRINE
Como é que ter nascido num carrossel
te mudou enquanto pessoa?

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Dificilmente se vê, em início de carreira, coesão e coerência tão expressivas como as de Ana Catarina Ramalho e Tiago Moura. A primeira, com uma dissertação de mestrado sobre D. Juan no teatro de Natália Correia, apresenta-nos o seu terceiro trabalho O ar cansado das minhas roupas (os dois primeiros, no contexto do espetáculo 4 Peças curtas (2011) pelo TIPO, foram Do dever de deslumbrar, a partir do poema homónimo de Natália Correia, e Relação ao minuto, versão original da peça que agora, reescrita, a própria encena). O segundo, com uma dissertação de mestrado sobre o testemunho do trauma em Sarah Kane, apresenta-nos Alguém olhará por nós, a sua estreia dramatúrgica, depois de ter contactado com nomes relevantes do teatro português contemporâneo como Marta Freitas ou Luís Mestre.

No entanto, apesar de composto por duas peças autónomas, O ar cansado das minhas roupas, seguido de Alguém olhará por nós assume-se como um único objeto artístico, o segundo espetáculo do ano letivo 2012/13 do Máscara Solta, pelo que será importante perceber os pontos de contacto entre os dois textos e a sua ligação ao trabalho desenvolvido pelos próprios autores no Teatro de Letras do Porto, desde outubro de 2012.

Em O ar cansado das minhas roupas (ACR), fica-se preso a uma rede social. Em Alguém olhará por nós (AON), fica-se preso numa roda gigante. Os movimentos em palco são, por isso, extremamente controlados, e condicionados pelo próprio espaço de exílio (compensa-se a prisão virtual com um cenário realista, a prisão concreta com um cenário concetual). Não que estejamos perante um drama estático (a não ser que pensemos o estatismo enquanto parte integrante de uma coreografia, a ausência de movimento como uma forma, entre outras, de movimento), mas, se em trans-, a retrospetiva que constituiu o primeiro espetáculo da dupla para o Máscara Solta, o jogo cénico dependia não só de referências a passagens, mortes e meios de transporte como do movimento do público que, por diferentes espaços da Faculdade de Letras, atravessava os dez primeiros anos do grupo, não será por acaso que os quadros de ACR/AON são encenados numa galeria de arte.

Na sinopse que escreveu para a sua peça, o autor afirma-o explicitamente: «Há quem diga que crescer é a lição mais difícil que temos de aprender. AON insere-se nesse momento das nossas vidas, em que estamos presos ao que fomos e ao medo do que nos tornaremos. Duas personagens encontram-se fechadas num sítio peculiar ao mesmo tempo que tentam fugir de um lugar comum das nossas vidas. No meio de tentar desvendar a razão por detrás da sua clausura, ambas as personagens buscam conforto no iminente aparecimento de um salvador». A genealogia de textos sobre pessoas presas (poder-se-ia mesmo precisar «mulheres») e sobre pessoas à espera é interminável (o momento da espera é, aliás, outro denominador comum a ambas as peças breves), fazendo com que o exercício de memória perpetuado por ACR/AON se deixe facilmente contaminar por referências e citações exteriores ao discurso.

Isto acontece, de resto, na sinopse da autora: «Fernando Pessoa escreveu que “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo” e que, só assim, conseguiríamos ter a capacidade de nos vermos para lá de nós mesmos. ACR é uma abordagem graciosa ao nosso quotidiano de consumismo rápido e indolor, que na era da informação vê a comunicação pessoal ser lentamente substituída por mecanismos tecnológicos que vendem a promessa de uma vida facilitada». Esta facilidade da troca de informação online é, contudo, pervertida pela própria escrita: na verdade, Pessoa não é autor de tal citação, tratando-se apenas de mais um caso de falsa atribuição de autoria – a alusão ao poeta plural só não é vazia de significado porque se passa performativamente do referencial ao autorreferencial.

Em ACR/AON, o dispositivo do exílio serve o questionamento da identidade. Depois de ter recentemente proferido, no colóquio Escrever nas Margens, a comunicação «Esta máscara que me anima» sobre a poesia de João Aguardela enquanto Maria Rodrigues Teixeira, para o álbum Uma ligeira inclinação para o mal (2008) da banda A Naifa, Ana Catarina Ramalho joga agora, em O ar cansado das minhas roupas (quase-citação de uma das músicas desse mesmo álbum), com o quadrado autora – encenadora – atriz – personagem. Também em Alguém olhará por nós, de Tiago Moura, as duas personagens partilham o nome das atrizes.

Numa situação traumática, porém, a identidade sofre um processo de descentralização, deixando de ser rigorosamente possível pôr por palavras (de forma realista) o que está em contacto mais íntimo com o nosso corpo. Tenta-se, por isso, fazer da realidade uma ficção: contam-se histórias, repetem-se chavões, prolongam-se silêncios. Acaba-se por tentar resgatar a maior das ficções: a infância. A escrita torna-se quase tão infantil como um conto de fadas ou uma feira popular, mas a simplicidade é também ela construída, apenas para ser constantemente desconstruída pelos desdobramentos. Os duplos, como se diz, «poderiamos ser qualquer um de nós» – uns mais sublimados do que outros.

Paulo Brás

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